Arranco pedaços de mim, cada dor um pedaço, cada angústia mais um pedaço que se solta.
Quando levo um esbarrão que me fere a alma, um pedaço se vai. Caem de acordo com o tamanho da dor. São pedaços sangrentos que me doem por dentro e me corroem. Vão me consumindo a conta gotas, até serem expulsos através de cortes que me enfraquecem o corpo e danificam a alma.
Dissolvo-me em dúvidas, em querer o que suponho ser inalcançável, pois me faltam forças para lutar. Não me sinto forte o suficiente para mudar de atitude. Ando a esmo sem ter a coragem de encarar o sofrimento que me aniquila e me devora.
Não consigo estancar as feridas e, desiludida, vejo, de tempos em tempos surgirem novas cicatrizes. São marcas que descrevem minha amarga trajetória de vida, envolta em perdas, abandonos, culpas e lagrimas.
Vou me mutilando aos poucos, e assim me desfazendo em partes. Arranco de mim o mal que teima em me acompanhar, que vagueia pelas noites mal dormidas, pelas horas de constantes inquietações e de profundas tristezas que habitam a minha alma.
Minhas metas de vida reescritas anos após anos já não me pertencem. Secretos planos reduzidos a pó e lançados ao mar.
Nos sonhos, meus pedaços se juntam e me fazem inteira. Realizo os meus desejos, sou dona de mim, das minhas vontades, da minha vida. Porém ao acordar deparo com a realidade, e me olho através das minhas cicatrizes. Estou nua em pelo e vazia de sentimentos. Ouço os meus soluços abafados ecoarem baixinho nas paredes do banheiro, e sinto as lágrimas geladas escorrerem pelo meu corpo ferido.
Pedaços de carne deixados amontoados nos cantos frios da sala de estar. Falta-me força e coragem para me faze-me inteira com o que restou de mim. São anos de automutilação, cedendo, me entregando, me deixando cortar.
Os meus desejos nunca foram meus, nunca prevaleceram, restou-me apenas batalhas perdidas. Aguardo um novo sinal, um novo protesto vindo do meu corpo, de minha alma, que ao se manifestar e se rebelar, será extirpado junto com os meus sonhos.
Quando encaro a realidade do meu dia a dia, vejo os meus pedaços espelhados pela minha longa e dolorosa jornada. Questiono-me: Até quando vou conseguir resistir? Quando entregarei o último pedaço que me resta e finalmente seguir livre, sem culpas, sem amarras?