Fui atrás de criaturas disformes, seres sem rostos, corpos retorcidos, figuras do imaginário da artista. A perfeição nos traços das crianças, na beleza suave, juvenil, contrastava com os monstros criados pela nossa mente, pelo nosso medo, pela nossa solidão.
Escutei murmúrios de admiração e indagação… Pessoas procurando entender o que viam através de seus olhares opacos. A imaginação fluía tentando adivinhar o significado de cada escultura: menino abraçado a um monstro com rabo de peixe, um macaco dando de mamar a uma criança, uma menina mutante sentada sozinha e assim por diante.
Observei o tumulto que a exposição causava ao ouvir frases cheias de falsas verdades, perguntas ingênuas sem respostas, que nem o criador saberia dar sobre as suas criaturas. Estavam lá, esculturas espalhadas pelas salas aguardando inquietas expressões de espanto e admiração.
Patrícia Piccinini deixou que a sua imaginação fluísse para despertar, em cada visitante, reflexões sobre a vida. Percebe-se que ela queria provocar questionamentos sobre a nossa existência: quem somos nós? O que fazemos conosco e com os seres à nossa volta? Como reagimos frente à diversidade? Ela instiga-nos a pensar sobre os monstros que nos rondam e nos acolhem.
O belo e o feio fazem parte de um todo. Os contrastes são cruéis nas formas. A beleza predomina e a feiura sobressai. Porém cria-se uma harmonia entre os dois seres, e os olhares registram apenas o sentimento de cumplicidade e afeto. Esbarramos com diferenças no nosso dia a dia, nas pessoas, na natureza e nas ações. Julgamos o que é belo e o que é feio e deixamos, infelizmente, de ver a essência de cada um e a beleza das formas disformes.