Vidas em contos

(por Rita Prates)

O resultado da biópsia deu câncer

– O resultado da biópsia infelizmente é câncer. – Assim me falou a médica ao ler os dados dos exames.

Estava com o envelope fechado havia uma hora. Não quis abri-lo. Algo dentro de mim dizia que não deveria. A expressão da médica já confirmava: em um dos meus seios havia um elemento estranho que estava pronto para me atacar e me consumir por inteiro. O câncer foi descoberto no início, ainda encapsulado na mama, ela o retirou, mas eu teria que fazer algumas sessões de radioterapia.

Não sei descrever exatamente como me senti ao saber da doença. Na verdade fui pega de surpresa porque a doutora afirmou, após a cirurgia, que o nódulo era benigno. Depois ela constrangida me informa que não era bem assim.  “Então aquele carocinho não era tão inocente quanto parecia, ele era do mal, era câncer e veio para me assustar”, pensei enquanto ela tentava justificar a análise precipitada que fizera e afirmar que estava tudo sob controle. Podia acreditar?

A próxima etapa era a mais melindrosa, dizer para os meus familiares e amigos sobre o estranho invasor que ameaçava me matar. É angustiante e embaraçoso ter que contar que você está com uma doença grave. As caras de espanto e de dó que as pessoas faziam quando eu falava que tirei um câncer me deixava desconsertada…é como se eu tivesse caído no chão e eles não sabiam como me levantar. Logo eu contra-atacava afirmando que com a radioterapia ficaria livre e curada. Procurava mudar de assunto senão o nó na garganta me impediria de continuar a falar.

Como sempre, após o impacto da notícia, a maioria das pessoas passa a relatar casos e mais casos ocorridos com conhecidos que haviam se curado do câncer.  Era bizarro ter que escutar que você era uma pessoa de sorte por descobrir no início a doença e que só faria rádio. Sorte! Sorte é não ter a doença. Mesmo com a biópsia afirmando que o nódulo foi retirado e não havia contaminado a região periférica, a dúvida persistia, e si… e si…

Após o primeiro round, voltei para a luta. Fui fazer a radioterapia.  A sala de espera estava lotada de mulheres de lenços na cabeça, de perucas ou de cabelos curtos. Havia também homens jovens e velhos, alguns em silencio, outros conversando baixinho e outros com olhares vagos, perdidos e preocupados. Todos com cicatrizes espalhadas pelo corpo, visíveis ou não, mas abertas em chagas nas mentes inseguras e amedrontadas.

Uma mulher mais velha foi logo puxando conversa. Contou-me que tinha tirado um seio, que fez quimioterapia e agora rádio. Terminado o tratamento esperaria um mês para fazer uma cirurgia de risco no coração. Com o passar dos dias ela me confidenciou sobre a sua vida, sobre as filhas e sobre o marido que a traiu e foi morar com a sua faxineira. Disse que não se importou, pois ele não valia nada e agora vivia feliz passeando com as filhas. Era otimista, divertida, falava pelos cotovelos e estava sempre puxando conversa com alguém.

Certa vez estávamos conversando e um senhor entrou no assunto. Ela logo perguntou se ele tinha tido câncer de próstata, o homem mais que depressa negou – Deus que me livre! Tenho sorte! – Exclamou rindo. Contou-nos que teve há uns quatro anos atrás um câncer de estômago e outro na vesícula, mas ficou curado. Agora apareceu um nódulo no pulmão, segundo ele, coisa à toa.  – Estou fazendo a rádio e ao acabar vou aproveitar e viajar dois meses na Europa, torrar o dinheiro, como eu fiz da última vez que estive doente, disse confiante o sortudo que não tinha problemas de próstata.

Conheci nesses 16 dias de radioterapia homens e mulheres em tratamento, uns mais otimistas e outros apáticos, inseguros com o amanhã. Doía-me quando chegavam os jovens, como uma moça branca em neve, acanhada, assustada com tudo o que estava passando e com o ambiente ao seu redor. Usava um chapéu preto e todos os dias se encolhia em uma cadeira bem distante dos demais, procurando se esconde e se proteger daquele pesadelo.

Havia um rapaz alto e bonito que nos cumprimentava com um sorriso tímido, procurava se equilibrar em duas muletas para proteger o joelho enfermo, ao seu lado seguia a mãe zelosa com um pequeno terço nas mãos. Enquanto o filho era atendido, ela dedilhava preces movimentando os lábios mudos e aflitos.

Gostava de admirar a altivez e a força de duas jovens que se diferenciavam das demais. Uma era morena clara e a outra moça negra, ambas chegavam muito bem maquiadas e sem nenhum adorno na cabeça lisa e perfumada. Destemidas, exibiam a calvície como um troféu por mais uma etapa vencida. Lembrei-me de muitas mulheres que se libertaram das tintas de cabelo e exibem com naturalidade as mechas brancas como um presente pelos anos vividos.

Perante grande parte das pessoas com câncer ali tratando, eu era uma das poucas que não havia passado pela quimioterapia. Tratamento que a maioria se referia como dolorosa, angustiante, sofrida, porém necessária. A rádio era mais branda, sem dores, com poucos efeitos colaterais. A máquina coopera com você, emite laser nos lugares milimetricamente calculados para combater o câncer, ela arremata e dá um ponto final para que o mal não se prolifere.

Alguns desabafavam e me contavam o pânico que sentiam de morrer, de deixar os filhos, marido, mulher e os sonhos não vividos. Procuravam fazer terapia para ajudá-los a enfrentar cara a cara a morte e também para lutarem contra a doença.

– Falar sobre o medo que o câncer provoca em minha vida, sobre a dor e a revolta disso estar acontecendo comigo, é o que me faz suportar todo esse pesadelo. Enfim, na terapia tento extirpar o mal que corroía os meus pensamentos e o meu corpo. – sussurrou emocionado um jovem advogado.

Todos naquela sala afirmaram que é fundamental para a cura do câncer ter o carinho e o amor dos familiares e também o aconchego dos amigos, para conseguirem suportar as dores dos tratamentos, pois as transformações são bruscas e agressivas no corpo e na alma, levando-os a ter a sensação amarga da sombra da morte os rondando diariamente.

Vencer essa luta contra a doença nos torna mais forte para enfrentar qualquer tipo de obstáculo pelo caminho. Cresce uma força interior que nos faz acreditar que a vida vale a pena apesar das dificuldades, e que devemos aproveitar os pingos de felicidade e acreditarmos no amanhã.

Quem teve câncer sabe que o acompanhamento clínico e periódico nunca terá fim, com visitas  ao médico e atenção especial às alterações no organismo.  O lema dos escoteiros passa a fazer parte das nossas vidas: “Sempre Alerta”. Estar sempre atento a qualquer coisa de diferente que aconteça com o nosso corpo e também com o nosso espírito. Depois dessa jornada passei a ficar sempre alerta, a viver o hoje, a dar valor ao presente e cultivar mais as pessoas que amo.

2 comentários em “O resultado da biópsia deu câncer

  1. Chafia Perri
    18 de outubro de 2018

    Amiga, vc é brilhante c as palavras .!
    A percepção da vida através dos olhos de quem passou ou passa por esse processo é de superação e valorização do ser humano em toda sua plenitude.
    Chafia

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  2. Marcelo Tello
    19 de outubro de 2018

    Muito lindo! Sensível!! Se superando a cada conto. Parabéns!!!

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Publicado em 18 de outubro de 2018 por e marcado , , .