Vidas em contos

(por Rita Prates)

Geração de novos velhos

Quantas vezes ouvi amigas e conhecidas afirmarem que, apesar de já terem passado dos cinquentas anos, ainda se sentem jovens. Alegam que não gostam de serem tratadas como doninhas, aquelas velhinhas dos tempos das avós.

– É claro que o corpo robusto, as rugas e o andar mais vagaroso denunciam a idade, mas a cabeça está a mil, talvez até melhor do que quando tinham quarenta anos. É uma relação bipolar entre a idade cronológica e a idade mental.  “Sinto-me saudável, mentalmente ativa e disponível para o amor”, disse a minha amiga bonitona de setenta anos. Fiquei pasma ao saber a sua idade, pois não aparentava, devido à energia juvenil que exalava pelos poros.

Lembrei-me das professoras da faculdade que se assustavam ao serem chamadas de senhora pelos alunos. Muitas estavam na faixa dos trinta.

– A ficha caiu, estou ficando velha! – Exclamou dramaticamente uma professora. – Ontem um garoto me tratou por senhora e hoje meus alunos.  Tudo bem, por respeito, mas está virando rotina fora da faculdade.   Aos trinta e dois anos me sinto uma jovem vestida com pele de loba.

O trem passa em alta velocidade: namoros, uniões, divórcios… e os anos seguem, as responsabilidades acumulam e as senhoras e senhores vão embranquecendo os cabelos ou perdendo-os.

– Encarar a travessia da meia idade é dose, é chocante! – Falou com ar de brincadeira um amigo no bar. – Depois que passei dos cinquenta fiquei vacilão: queria provar que ainda era um conquistador, um sedutor de jovens. A ficha caiu quando percebi que estava fazendo papel ridículo. Foi quando uma garota, por maldade ou por estar cheia das minhas investidas, falou-me zoando: “Tio eu acabei de ligar para a minha avó vir te encontrar aqui no bar, ela tá a fim de um coroa.” Por causa da minha cara espanto e de trouxa, meus amigos me chamam de “Tiozinho”.

– Tenho diversos conhecidos que estão conectados nos aplicativos de namoros. Procuram alguém que provavelmente virá com a bateria gasta ou com defeitos de uso –  falou brincando o amigo careca do Tiozinho. –  Quero uma mulher que não precisa ser top de linha, o importante é nos divertirmos e aproveitarmos os anos de lucidez que ainda nos restam. É difícil após os “entas” encontrar essa pessoa disponível que queira recomeçar a vida a dois, pois carregamos um kit com filhos, netos, recordações, neuras e assombrações.

Uma prima me confidenciou que está à procura de um companheiro, que ele não precisa ter um currículo de sucesso, mas que seja um cara do bem. “Se aparecer um eunuco bacana, que tenha um bom papo e goste da vida, topo na hora”, falou a meia voz.

Conheço mulheres que não têm preconceito em encarar relacionamentos com homens mais jovens. As mais atrevidas não se preocupam com o que os outros pensam. Recuperam o brilho e vivem o sexo intensamente, mas quando constatam que há um cheiro de exploração no ar, descartam os sedutores antes de se envolverem emocionalmente.

Outras topam, bancam e pagam literalmente para ver, como a mãe de uma amiga. Elas não estão nem aí, afinal, não existe almoço de graça. São donas de suas vidas e dos seus caprichos. A maioria desses afetos acaba em desafetos, mas se tornam boas e valiosas recordações para contarem com muitos risos e poucas lamentações, como o caso da octogenária rica que banca o seu jovem professor de bolero para acompanhá-las nas sextas dançantes, restaurantes finos e locais frequentado pelo ex-marido e a sua novíssima mulher.

Esse assunto veio à tona porque aquela amiga de setenta anos do início do texto disse-me que nas cartas de tarô apareceu para ela um homem grisalho, boa pinta, rico e que iriam se casar. Têm uns dez anos que ela me fala exatamente a mesma coisa, que as cartas não erram, e que em breve ele aparecerá.

Contei-lhe um caso de uma senhora que fora casada durante quarenta anos, quando o marido morreu, ela se sentiu muito sozinha. Três meses depois a mulher de um conhecido faleceu. No enterro ela foi consolar o viúvo e aproveitou para convidá-lo a tomarem um café após a missa de sétimo dia.

No encontro ela jogou as cartas na mesa, propôs que eles fizessem companhia um ao outro para afastar a solidão, afinal se conheciam há anos e agora estavam desimpedidos. Ele, pêgo de surpresa, aceitou a proposta. Agora estão juntos e felizes. Depois desse caso fiquei sabendo de outros bem parecidos. Acho que virou uma nova estratégia macabra de conquista consolar o amigo no cemitério e fisgá-lo sem culpa, antes que outra o faça.

A tia avó de uma conhecida se separou e foi morar em um apart hotel. A faxineira, vendo-a sozinha, disse-lhe que havia um senhor simpático e divorciado no quinto andar. Ela não perdeu tempo: passou óleo de peroba na cara, pegou um vidro de azeitonas e foi tocar a campainha da casa do homem. Lá se apresentou e pediu para que ele abrisse o pote para ela, contou-lhe que estava sozinha,  deprimida e que precisava de alguém para conversar. Ficaram amigos e agora formam um casal bem animado que curte dançar nos finais de semana.

– Então está na hora de eu ir à luta, ficar mais esperta. Não vou perder um enterro e nem missa de sétimo dia. Ficarei atenta nas informações de falecimentos e separações de meus amigos e vizinhos, pois as mulheres estão muito ousadas e eu fico aqui pegando mosca. A setentona agora vai agir. –  falou minha amiga rindo descontraída enquanto eu me despedia e lhe desejava boa sorte.

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Publicado em 8 de novembro de 2018 por .