– O paraíso é aqui – falou-me Tarsila quando fui visitá-la na ilha. Ela me contou com tanto entusiasmo sobre cada pedacinho do Morro de São Paulo, que resolvi descrever esse paraíso visto pelos olhos de Tarsila, conferido e aprovado por mim.
Ela sempre desejou encontrar um lugar bonito, tranquilo e agradável para viver. Faz dez anos que o achou, jamais o trocaria por outro. A ilha a ajudou a se recuperar das feridas deixadas pelo divórcio e a encontrar um novo amor. Ali fez o seu ninho, transformou a casa aconchegante e linda ao pé do morro em uma pousada.
Todas as manhãs quando Tarsila chega à varanda do seu quarto vê o sol surgindo preguiçoso, clareando lentamente o mar, abraçando os pescadores, despertando os moradores e convidando-os para uma caminhada na praia.
Nunca se cansa de agradecer ao universo pela beleza da ilha que a enche de prazer. Ilha de mil amores, charmosa e bela. Casas e pousadas escalam os morros a procura de um lugar ideal para avistar o azul do mar, as ondas e os coqueirais. Algumas são simples, pintadas de cores alegres e saltitantes, outras demonstram status, são robustas e altivas.
Tarsila gosta de ver os olhos brilhantes dos turistas que desembarcam do catamarã. Eles ficam em êxtase admirando as casas coloridas e se encantam ao lerem nos murros poesias que escorregam pelas paredes. Embriagam-se de prazer com o burburinho das pessoas bronzeadas subindo e descendo as ruas íngremes, estreitas e cheias de voltas. É de praxe parar na última curva para descansar e se deslumbrar com o visual maravilhoso da primeira praia.
– A vista da praia é linda com as suas ondas brilhantes e sonoras, seduzem os que chegam à ilha – fala alegre Tarsila. – Parece algo mágico, como um canto de uma sereia chamando-os para um mergulho. Ficam todos doidos para chegarem logo às suas pousadas, se trocarem e entrarem no mar, onde águas mornas e relaxantes os acolhem dando-lhes boas vindas.
Ela conta que há turistas de várias partes do mundo, que idiomas e sotaques vão alinhavando palavras, costurando gestos e tecendo novas amizades. Procuram se comunicar, se fazer entender, sem se importar com as diferenças de cores, credos e status. Cruzam-se pelos caminhos, esbarram-se, trocam sorrisos, curtem a ilha e usufruem cada canto desse paraíso.
A praia em frente à pousada de Tarsila é linda: coqueiros fazem a divisa das calçadas com a areia e pedras de todos os tamanhos enfeitam o mar. Nas ruas próximas às praias espalham-se barracas pelas calçadas vendendo enfeites, passeios e ilusões.
Mais adiante surgem pequenos barcos que levam os turistas para conhecerem outras praias que circulam a ilha, onde oferecem banhos de lama rejuvenescedores, nadar no mar de águas calmas com peixinhos e corais e ir aos vilarejos saborear pratos típicos.
Do mirante da pousada Tarsila avista a tirolesa, que é a grande atração dos aventureiros, onde se tem fortes emoções temperadas com muita adrenalina. Vale a pena enfrentar o desafio, pois a vista é de perder o fôlego. Começa a aventura do alto do morro, perto do farol, onde turistas de todas as idades descem sentados em pequenas cadeiras presas em fios de arame que os conduzem até o mar. Ela descreve como é divertido ouvir os gritos mesclados de medo e bravura ao saltarem na tirolesa e depois deparar com os rostos cheios de alegria e êxtase quando finalmente chegam ao destino.
Tarsila afirma que por toda a ilha existem taxis, que são carrinhos de mão conduzidos por jovens sarados, quase atletas, fortes o suficiente para aguentar o subir ladeira acima, descer ladeira abaixo com grande número de malas. Alívio para o turista, pois seria um suplício carregar seus pertences por caminhos estreitos e íngremes.
Os taxistas demonstram uma agilidade fora do comum, rápidos e hábeis trafegam com os seus carrinhos de mão com destreza e só param para serem fotografados pelos visitantes incrédulos. Alguns chegam a carregar crianças e bêbados.
Tarsila explica que para chegar à praia do encantamento tem que passar pelas três primeiras praias e quase no final da quarta lá está ela, encantada, te chamando para ficar. Um mangue com suas árvores tortas retorcidas pelo vento e invadidas pelo mar faz a divisão das praias. As árvores de pequeno porte lembram seres de outro planeta, parecem que têm pernas, muitas pernas com seus pés múltiplos enfiados na areia.
Ela fantasia que as árvores andam pelo mangue quando escurece, passeiam, fofocam e contam as últimas dos turistas. “Vejo-as correndo para o mar procurando conchinhas e, ao anoitecer, namoram ao luar entrelaçando suas raízes umas nas outras e fazendo gravetinhos.”
Para a feliz moradora o encantamento está na vista do mar misturado com o mangue, está em boiar na água morna como se estivesse em uma banheira aquecida, após um dia árduo de trabalho. – É gostoso quando você liberta o corpo exausto para ser embalado pelas ondas de mãos pequeninas, suaves e carinhosas. Você se torna único, fecha os olhos e deixa o corpo flutuar suavemente. Ao abri-los e ver o céu conversando com o mar, sente-se feliz e em harmonia com a natureza.
Para voltar para a praia de número um, há a opção de regressar de charrete puxada por cavalos e conduzida por um nativo risonho que lhe conta as últimas notícias da região, desacelerando o motor dos animais para mostrar onde residem os ilustres moradores da ilha.
– Ao cair da tarde nada melhor do que parar nas barracas de cocadas de abacaxi, de chocolate com pimenta, de banana e de outros sabores divinos. Não se importe com uns quilinhos a mais, pois vale o prazer de saborear as guloseimas sem culpa – fala Tarsila lambendo os lábios. – Também nas calçadas ficam diversos carrinhos com carambola, caju, cajá e uma infinidade de saborosas e deliciosas frutas, onde os clientes sedentos escolhem os coquetéis feitos na hora por excêntricos barmen.
Tarsila descreve como são fascinantes os finais de tarde em um restaurante no alto do morro onde tocam o Bolero de Ravel. Tendas brancas, puffs gigantes e almofadas coloridas descansam os corpos bronzeados dos turistas. O som mágico desce pelas encostas, circula os barcos e dança com as ondas. Os presentes se calam extasiados, contemplativos e em sintonia com o universo.
Quando o sol se põe calmamente, raios de luzes refletem nos barcos transformando a paisagem em uma pintura única, indescritível. Não tem quem não se sinta invadido pela beleza do lugar, pela música e pela sensação de leveza proporcionada pela vista deslumbrante.
À noite os bares e restaurantes colocam sobre as mesas velas acesas protegidas por cilindros de vidro propiciando um visual colorido e festivo. Festas nos bares, festas nas ruas e no vai e vem de pessoas que estão à procura de diversão. O embalo das músicas e o clima descontraído desperta nos casais o desejo de sentirem novamente o sabor dos beijos e abraços esquecidos pelo tempo.
– Assim é a ilha, cheia de encantos, de alto astral e de muita energia.
Passei uma semana seduzida com a beleza do lugar, das pessoas e do clima. Realmente confere com tudo o que ela me disse e, se existe paraíso, o Morro de São Paulo faz parte do ranque onde tudo é divino maravilhoso.
Como é bom passear pelos seus contos, lindos e envolventes. Obrigada por nos presentear com a sua arte, excelente escritora.
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