Vidas em contos

(por Rita Prates)

Minha adorável companheira

15703264388073407484758626598963

Adoro conversas de boteco e um caso me chamou atenção depois de duas garrafas de vinho e muitos assuntos aleatórios. Paramos curiosos para ouvir o caso da nova moradora da casa da minha amiga que, segundo ela, está sempre fazendo-a rir de suas peraltices.

A minha amiga tem o dom da fala, seria uma boa pregadora. Quando resolve contar uma história ficamos atentos e não a interrompemos para não perder o fio da meada. Os seus casos são movidos a enredos engraçados e finais surpreendentes. Tentarei relembrar ao máximo o que ela nos contou:

– Ela veio morar comigo há alguns meses, procuro me adaptar a ter uma companhia em casa depois que os meus filhos foram morar cada um em seu quadrado. Ela é geniosa, mandona e, às vezes, consegue me tirar do sério. Vou tolerando, afinal, preciso dela. Vou descrever-lhes a criatura: baixinha, nem tão feia, nem tão bonita que possa atrair seguidores, mas é esperta e determinada. Gosta de fazer tudo no capricho. Quando lhe altero os afazeres, ela fica fula da vida e dispara a resmungar. Quando isto acontece, fecho a porta e a deixo reclamando sozinha até se esgotar.

Eu fiz um pacto de tolerância, tipo: ela me aceita como eu sou e eu a aceito como ela é, destrambelhada. Lógico que não sou nenhuma santa, também tem horas que nem eu me aguento, ranzinza e cheia de detalhes, mas aprendi a controlar a minha língua ferina, para não me ver flutuando em uma bolha coberta de razão.

Ah! Não posso me esquecer que ela também é gulosa. Tem horas que não acredito noque vejo ela engolir, e antes que eu fale algo ou retire o prato suculento de sua frente, ela rapidamente o devora. Receio que tenha um troço, uma indigestão ou fique intumescida e tenha que leva-la a um pronto atendimento. Depois de criar dois filhos, ainda tenho que cuidar de uma desmiolada que engole tudo que encontra pela frente.

Mandei para minha filha uma foto dela deitada no chão com os olhos revirados e ao seu lado um material farto para um médico legista. Falo sério! Vocês já viram falar em gente que engole prego, clipes, grampo de cabelo, algodão e outras loucuras mais, pois ela, além de gostar de fios de cabelo, aqueles fios que vamos colocando despistado na boca para aparar as pontas e quando vemos… ufa! Já engolimos. Pois é, ela gosta de muitos fios de cabelo, deve ser o sabor do xampu de morango.

Não posso falar apenas dela, também gosto de uns pedaçinhos de unha quando fico nervosa, mas convenhamos, abocanhar tudo que vê pelo caminho como um animal faminto tem horas que é assustador.

Tirando de lado a fome exagerada e doentia, ela é uma lindeza. Gosta de passear pela casa soltando pequenos suspiros e quando menos espero a vejo ao meu lado assistindo tv. Às vezes me pego elogiando-a pelo seu trabalho árduo e, com um gesto de gratidão, passo a mão com carinho sobre os seus ombros redondos e desproporcionais para o seu tamanho. Eu sou uma pessoa muito fácil de me apegar às pessoas ou às coisas, isto é, gosto que correspondam aos meus anseios, e ela, apesar de todas as atrapalhadas é uma adorável companheira.

– Quem é essa criatura? Pergunto curiosa, e vejo ao meu redor os meus amigos tentando adivinhar quem é a fulana.

Ela é uma entidade especial, porque na verdade ela não fala, só resmunga. Só funciona quando ligo o comando, assim deveriam ser todos nós, movidos a controles, disse minha amiga sorrindo. Paguei uma vez ao adquiri-la, ou seja, não preciso acertar todos os meses o seu salário, férias, 13° e recisão. Quando ela implica em não querer trabalhar e noto que está desanimada ou lerda, levo-a no pronto atendimento e eles acertam os seus fios mal criados e ela volta disposta para mais uma jornada de trabalho.

– É um aspirador de pó, ouço alguém gritar.

– Não – fala indignada, Gabi não é uma máquina vulgar que você tem que comandar. Gabi é o meu robozinho de limpeza, uma máquina de última geração, que tem vida própria, que é programada para fazer o serviço com independência e autonomia. Divirto-me vendo-a passear pela sala sugando toda a poeira, desviando dos obstáculos e enfurecida quando não consegue seguir adiante. Peço-lhe calma e vou ajudá-la, para que não se desespere e comece a berrar.

Ela é temperamental, tem medo de descer escadas e empaca quando vê obstáculos asua frente. Diverte-se quando está sozinha em um espaço livre, fecha os olhinhos e sai dançando com os parceiros que a envolve em seus corpos invisíveis.

Converso com ela chamando-lhe atenção ou elogiando-a. Meus filhos acham que pirei. Conheço pessoas que conversam com as plantas, com as árvores e com o universo, logo posso conversar com a minha adorável companheira que está sempre ao meu lado me dando uma mãozinha nos afazeres doméstico.

Fechando com chave de ouro, a minha amiga avisa aos ouvintes risonhos que quando lançarem um robô de tamanho natural, ela o comprará imediatamente, para juntos dançarem pela casa ao som dos Rolling Stones, isto é, se Gabi permitir tal ousadia .

Deixe um comentário

Informação

Publicado em 6 de outubro de 2019 por .