Vidas em contos

(por Rita Prates)

O XAMÃ

Segundo o dicionário dos nomes próprios Xamã significa “inspirado pelos espíritos”, “aquele que faz magias”. Prestem atenção na história deste Xamã que passou a fazer parte do folclore popular da pequena cidade do interior das Minas Gerais.

O simpático fazendeiro de 78 anos andava por suas terras quando uma cobra cascavel o mordeu no tornozelo e escapuliu mata adentro. Após a investida da cobra ele volta para casa e conta a sua mulher que um lagarto o atacou.

Mentiu!  Por quê?  Sempre viveu na roça e conhece as peçonhentas mais que qualquer um. Será que é porque a sua mulher não gosta que ele vá sozinho para campo ou ele realmente se equivocou devido à idade?

Com o tempo o veneno foi se espalhando pelo corpo e ele começou a inchar e a urina ficou avermelhada. Correram para o hospital e a jovem médica mesmo vendo as marcas dos dentinhos espertos da cobra, preferiu acreditar que a obra era do lagarto.

Em casa o efeito do veneno foi se alastrando pelo corpo do homem causando manchas, dores e enjoos. Desesperada a esposa pede ajuda ao parente médico que estava em uma cidade próxima. Ao saber do estado do tio matou a xarada – mordida de cobra. Mandou uma ambulância com o soro e o internou na cidade vizinha.

Quadro gravíssimo, órgãos vitais comprometidos. Na cidade pequena a rádio da cidade pede que os amigos e desafetos rezem pelo moribundo. Uns fervorosos e sensibilizados faziam as suas orações clamando por cura, outros rezavam sem muita dedicação, devido as aperreações do passado.

A esposa aflita circulava pelo hospital em preces. Aos poucos ele foi melhorando, mesmo lesado tentava se comunicar, mas sua voz escapuliu junto com a cobra para o mato. Os olhos abertos e ressecados imploravam por  uma gota de lágrima para lubrificá-los.

Uma tarde ao visitá-lo vimos que estava bem melhor. Ansioso para se comunicar soltava fracos gruídos. Vendo a sua aflição sugeri que fizéssemos um abecedário para ele e ao escolher a letra da palavra  piscar duas vezes. Assim descobriríamos o que o afligia.

-É essa letra amorzinho?  Perguntava a mulher apontando para o cartaz.

Ele piscava negando e quando era a escolhida, gruía e piscava duas vezes.

E assim foi até formar uma frase que surpreendeu a todos: – Quero cortar o cabelo.

Risos de espanto. – Como pode uma pessoa escapulir da cova e o seu primeiro pedido ao abrir os olhos é o de cortar o cabelo?

Segundo lembrou a esposa, no dia da cobra ele tinha marcado de ir ao salão cortar o cabelo. Chegamos à conclusão que ele tinha uma dívida na terra. Para que estivesse quite com o além, melhor seria voltar e cortar a juba que o faria forte novamente.

Para não dizer que ele saiu 100% desse perrengue, uma vista ficou perdida, porque ouve falha dos enfermeiros que desatentos não lubrificaram e não protegeram os olhos assustados do mordido de cobra. Como uma fênix ele ressurgiu das cinzas, e aos poucos foi se aprumando com um desejo enorme de viver e voltar a voar.

Quem o vê andando pelas ruas da cidade não imagina que é um sobrevivente de uma cascavel, cobra venenosa que não conseguiu derruba-lo. Por ter sobrevivido tornou a reputação da cobra abalada e a sua fama prejudicada, pois ele a desafiou para um duelo, e ao viver lhe quebrou o encanto do veneno mortal.

Aos olhos de alguns novos admiradores ele se tornou um Xamã, cujos poderes foram conquistados ao vencer a morte e quem sabe, se tornou imortal.

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Publicado em 26 de novembro de 2019 por .