Moro no décimo andar em um apartamento que dá de frente para um prédio residencial. Da janela da sala vejo um apartamento um tanto quanto surreal, por que os novos moradores resolveram transformar a sala de estar em banheiro. Isto mesmo, próximo à janela colocaram um chuveiro grande, banheira, bancos e mais distante o vaso sanitário. Algumas chefleras enfeitam o ambiente, e para terem mais privacidade colocaram vidros jateados na janela.
Claro que não funcionou, porque várias vezes vi um rapaz tomando banho e a sua sombra definia o seu perfil atlético, sem contar quando o mesmo deixava a janela meio aberta para, quem sabe, podermos apreciar a sua farta musculatura. Também havia uma moça que sempre se banhava com a janela fechada, e a sua sombra seguia os seus gestos suaves ao se lavar.
Até ai tudo bem! Um voyerzinho de vez em quando não faz mal ninguém, ainda mais quando o outro, nesse caso o rapaz, permite vê-lo como veio ao mundo. Porém um fato aconteceu recentemente surpreendendo a mim e aos meus vizinhos.
Fiquei presa em casa, literalmente afastada da rua, dos amigos e familiares por causa de um vírus que veio varrendo os países como um tsunami matando pessoas. O país entrou em alerta total e famílias foram aprisionadas em suas residências como uma forma de não disseminar a praga e nos proteger. O que fazer para acalmar os ânimos se na televisão só se fala no vírus? Ler, escrever, arrumar as gavetas, assistir filmes ou tentar se distrair ligando para amigos.
Entediada, cheguei à janela em uma manhã de sol para admirar a rua e ver as poucas pessoas que se aventuravam a andar entre vírus. De repente ouço no andar de cima barulhos de passos correndo em direção a janela, e no apartamento ao lado percebo sombras de pessoas se escondendo atrás da cortina da sala. Por fim, olho para a frente e deparo com algo inusitado, um casal nu no banheiro da janela jateada.
– Que loucura! Será que eles vão transar para a nossa plateia, pensei estarrecida e curiosa. Não deu outra. O jovem musculoso envolveu a sua presa com carinho debaixo do chuveiro beijando-a e acariciando-a. Dominada, ela se deixou embalar no compasso harmonioso do vai e vem do companheiro.
Depois ele a pegou por trás e ela apoiando-se na parede se entregou em delírios. O balançar das cortinas a minha volta e o bater dos pés em cima da minha cabeça demonstrava que a plateia estava empolgada com as cenas de sexo explícito em plena manhã de domingo.
O prazer do sexo oral quase fez explodir o jovem atleta, porém ele conseguiu se conter, e para finalizar colocou-a de quatro no ato. Após o gozo triunfal, o casal ficou um tempo abraçado debaixo do chuveiro ensaboando-se mutuamente e deixando a água escorrer por seus corpos exaustos de prazer. Envoltos em uma toalha grande saíram abraçados dando por encerrado o espetáculo.
Bela cena de sexo para um público cheio de energia contida e carentes de emoções. Estranho, mas tive a impressão de que o jovem viu o movimento nas janelas indiscretas, pois algumas vezes virava o rosto em nossa direção e voltava a se concentrar em sua bela performance.
Fiquei sabendo por uma vizinha que ela mandou um bilhete anônimo para o casal, nele relatou que alguns moradores do prédio da frente viram a cena de amor através da janela jateada. Aconselhou-os que seria melhor escurecer o vidro da janela para se resguardarem, pois os moradores do prédio da frente via tudo o que se passava no banheiro deles e estavam gostando, kkkkk.
A minha faxineira disse que a sua amiga trabalha na casa do casal. Contou a ela que o porteiro entregou o bilhete para a patroa, e logo após a moça teve uma discussão com o marido. Desde então não trocam uma palavra. Ele vive mau-humorado e ela nervosa. A patroa agora dorme na suíte de hóspedes e se banha lá, ele continuou usando o banheiro da janela jateada.
– Tenho outra coisa do casal da frente para contar para a senhora, falou-me em tom de fofoca – Fiquei sabendo pela minha amiga, que ela escutou a patroa falar por telefone com a prima que não era a primeira vez que eles foram flagrados fazendo sexo, e que já foram pegos no elevador, na garagem e inclusive no avião.
Há tempos que ela percebe que o marido fica mais excitado, eufórico e carinhoso quando correm risco de serem descobertos. Afirmou para a prima que descordou quando ele quis transformar a sala em banheiro, mas ele foi irredutível e ela teve que ceder. Antes de desligar o telefone disse aos prantos que vai se separar dele, apesar do sexo intenso e arrebatador que só ele sabe fazer.
Por causa da quarentena deixei de ter notícias do casal através da minha faxineira. Porém certa noite estava lendo quando ouvi do apartamento de cima passos agitados correndo em direção a janela da sala, e do apartamento ao lado escutei a vizinha chamando o marido para chegarem à janela.
Curiosa, fui ver o que se passava na rua e logo me deparei com luzes coloridas piscando e refletindo por todo o ambiente da janela jateada. De repente surge o casal dançando completamente nus. Eles deslizavam seguindo o compasso do movimento das luzes sobre seus corpos.
O jovem musculoso segurava a mulher pela cintura com delicadeza e com maestria, fazendo movimentos intensos e harmoniosos. Parecia que estavam participando de uma dança de ritual de acasalamento. Um espetáculo lindo, suave e belo.
Quando pensei que ia começar o segundo ato as luzes se apagaram e eles sumiram de cena. Interromperam de forma tempestiva o espetáculo divino e ao mesmo tempo excitante.
Segundos depois ouvi umas palmas acanhadas vindas da cobertura, depois como que despertos da magia, mais palmas entusiasmadas e assovios atravessavam a rua em direção ao casal da janela jateada.
Não me contive e também aplaudi o belo espetáculo, mas para a nossa tristeza não houve bis. Desde aquela noite em que o jovem casal dançou a sombra da janela jateada com ritmo sensual e elegante não o vimos mais. Sumiram deixando apenas apetecíveis cenas memoráveis.