Vidas em contos

(por Rita Prates)

AS IRMÃS

Ao tocar a campainha da casa surgiu uma senhorinha de cabelos brancos preso em coque, muito curva, que me olhou de baixo para cima e me perguntou o que eu queria. Disse-lhe que era a cuidadora de idosos indicada para dormir todas as noites com a senhora Luzia.

Ela me mandou entrar, atravessamos uma sala minúscula e chegamos na copa. Lá, havia uma mesa grande, duas cristaleiras cheias de porta retratos e um piano de calda. Encantada com as fotos de moças sorridentes perguntei quem eram aquelas jovens lindas.  A senhorinha curva me falou que eram os retratos dela e de suas irmãs quando jovens, e a fotografia maior era dos pais que estavam sentados em um sofá tendo ao lado o irmão mais velho.

-Sempre fomos uma família muito unida, disse-me segurando a foto dos pais com o rapaz. Somos cinco mulheres e um irmão que já se foi. A minha mãe faleceu primeiro, dois dias depois foi o enterro do meu pai, e após uma semana o meu irmão enfartou. Fiquei com medo de que as minhas irmãs seguissem o caminho da morte e fossem se unir a eles.

– Para tranquilizá-las fiz um pacto com elas, falou baixinho obrigando-me a agachar para ouvi-la. Combinamos que eles estariam sempre presentes em nossa memória, pensaríamos neles relembrando os momentos felizes, como os vividos nos saraus da família. Esse acordo familiar fez com que tivéssemos desejo para seguirmos juntas.

 De repente ouvi uma risada e vi sentada em uma poltrona uma senhora magrinha, sorridente e demente. Levantou uma mão tremula com dificuldade e tentou pegar a foto na mão da irmã, que imediatamente a guardou na cristaleira.

– Esta é a Luzia com quem você vai ficar à noite – disse-me sem virar a cabeça. Já te expliquei por telefone as dificuldades dela para se locomover e falar. Deve dar-lhe banho e coloca-la para dormir, e se ela necessitar ir ao banheiro use a comadre.

Arrastando os pés com dificuldade a velha curva entrou em um quarto ao lado da poltrona onde estava Luzia e me pediu para aguardá-la. Olhei ao redor e contei cinco portas que circulavam a mesa grande. Escutei um girar de maçaneta e surgiu outra senhora baixinha e gordinha que se apresentou como irmã das outras duas. Dos outros dois quartos apareceram mais duas velhinhas, uma andava de bengala e a outra veio ao meu encontro segurando-se nos móveis para não cair.

– Parece que estou em um asilo, pensei preocupada. Nenhuma dessas mulheres tem menos de 80 anos e estão bastante fragilizadas. Por outro lado, se tudo correr bem, terei emprego por muito tempo.

A irmã que andava de bengala fez questão de me mostrar a casa, cômodos pequenos e escuros para cinco idosas com dificuldades de locomoção.

– Cada uma de nós temos um quarto onde guardamos as nossas coisas. Este quarto é da Luzia, a cama da janela é a sua, mostrou-me apontando com a bengala. – Não se assuste com o armário cheio de roupas de festa, fazem parte da nossa história quando tínhamos cinturinhas de pilão.

No dia seguinte passei a dormir com Luzia e a conviver com as adoráveis irmãs. Todas as noites nos sentamos para jantar e elas contam casos divertidos da escola de dança e de música que tinham na região.

Ninguém no bairro entende por que as irmãs não se mudaram para a outra residência que possuem no mesmo quarteirão. O irmão construiu e mobiliou a casa como elas queriam, ampla e confortável. Porém, inexplicavelmente, não foram morar lá. A residência permanece fechada e só abre quando emprestam para os parentes em trânsito pela cidade. 

As noites são tranquilas, Luzia dorme cedo e poucas vezes acorda para fazer xixi. Nesses três meses que estou na companhia das senhorinhas percebi que elas mudam de comportamento todas as sextas-feiras. Ficam mais alegres, mais animadas e enchem os armários de guloseimas e sucos.

Também notei que nas sextas-feiras eu passo a noite dormindo pesadamente. No outro dia sempre me levanto mais tarde, as irmãs não reclamam, mas eu chego atrasada no outro serviço e levo bronca do patrão.

Na última sexta feira fiquei atenta com os remédios que a irmã baixinha e gordinha deu para Luzia. Ela contou as gotas que colocou no suco e entregou para a doente beber, depois ela me serviu um copo. Encucada, tomei um pouco do suco e falei que beberia o resto no quarto antes de dormir.

Estava em sono profundo quando ouvi um barulho de conversas, risos e música. Levantei-me com dificuldade sentindo as pernas pesadas, notei quase em pânico que Luzia não estava em sua cama. Aturdida e aflita abri uma fresta da porta para ver o que ocorria, parei atônica ao constatar que havia pessoas conversando alegremente.

Espantada, tentava entender o que estava acontecendo. Umas moças cantavam ao redor de uma jovem de vestido amarelo que tocava divinamente o piano. Na cabeceira da mesa estavam sentados um rapaz e um casal mais velho acompanhando a cantoria. Na mesma hora me perguntei:

– Quem eram essas pessoas?

– Por que esta reunião de madrugada?

– Onde estavam as irmãs idosas?

Desorientada, e sem entender o que estava ocorrendo, me surpreendi quando uma jovem passou bem próxima a mim, assemelhava-se muito com a velhinha que usava bengala. Uma outra moça muito elegante, que estava com um vestido azul, recordava a velha curva que me olhava de baixo para cima.

Perplexa, constatei as semelhanças das moças com as fotos nas cristaleiras. Não havia dúvida, as jovens sorridentes de outrora eram as velhas senhorinhas de hoje. Elas pareciam se divertir, contavam e dançavam ao som do piano.

Olhei pasma para a foto dos pais das idosas sobre a cristaleira, correspondia exatamente com a fisionomia do casal na sala. Eles ao me verem escondida a meia luz vieram em minha direção, e antes que me abordassem, deparei-me deitada em minha cama coberta com uma colcha de Piquet. Porém, ao sentir-me invadida por um sono profundo vi Luzia, através de um flash de luz, despindo-se de um vestido amarelo e pendurando-o no armário ao lado do vestido azul.

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Publicado em 10 de junho de 2020 por .