Vejo mãos subindo pelas paredes como se estivessem procurando formigas ou teclando uma música imaginária. Vejo pés que levam e trazem carrinhos de rolimã em ritmos contados e recontados.
Vejo mãos que gemem quando o dedão recebe o comprimento dos outros dedos; que se abrem e fecham; que se espreguiçam e se encolhem, que recebem massagem e dão massagens; que rodam bolas prá lá e prá cá, que puxam uma cordinha com uma mão e esticam com outra em um vai e vem lento e doloroso.
Vejo pernas puxadas para cima e na diagonal em uma faixa presa aos pés; que carregam pesos em um sobe e desce prá direita e prá esquerda, prá cima e prá baixo, de um lado e de outro, e por fim descansam exaustas.
Vejo bumbuns que sobem e descem; pernas e braços que se erguem juntos para cima como uma mosca morta, ficam alguns segundos parados, e quando descem vem seguidos de gemidos e suores.
Vejo pessoas que imitam gatos, ficam de quatro ao esticar braço e perna opostos e tentam não tremer; fitas elásticas sendo puxadas de várias maneiras para fortalecerem músculos dos braços e acalmar o bico de papagaio ou os ombros arriados.
Vejo pessoas com as costas grudadas na parede como se estivessem à espera de serem crucificadas, mas a cada segundo se desprendem da amurada e se prendem de novo para fortificar o esqueleto doído e, por fim, elas com os traseiros grudados em uma bola descem e sobem na inerte parede com o suor escorrendo pelo rosto em fogo.
Vejo curiosos que forçam o corpo para frente com os braços no contorno da porta para espiar o que há lá dentro; que ficam em cima de uma bola cheia de gomos em um balanço frenético para se equilibrarem.
Vejo pessoas sentadas e a cada segundo chuta uma bola imaginária; outras abraçam as pernas e formam um quatro no ar; algumas viram tatu bola; também há aquelas que se alongam nos degraus da escada ou se inclinam em uma rampa para esticarem os músculos encurtados das pernas.
Vejo braços que levantam bastões nas costas e os que balançam um peso na mão como um pêndulo de relógio. Pessoas que viram o pescoço para um lado e para outro, e fazem movimentos diversos com os ombros que resistem em relaxar.
Nesse incrível mundo de pacientes em busca de alívio para as dores do corpo vejo homens e mulheres que contam as suas dores da alma. Uma mulher contou que encontrou o ex noivo na rua de braço dado com outra, descreveu para as pessoas a sua volta o quanto sofreu com ele, desde as agressões verbais até as físicas.
Outra que falou da depressão que teve por ter de parar de dançar devido as fortes dores na coluna, e o idoso que se queixou dos filhos que se esqueceram do seu aniversário e quase nunca o procuram. Assim, durante os exercícios eles aproveitam para contar os seus perrengues pessoais aos colegas de dores físicas e emocionais.
Vejo Cláudio, o homem do jaleco longo e branco que pergunta a cada pessoa que chega como se sente. Conhece o nome de todos e onde lhes dói: o ombro, as costas, a bacia, as pernas, o pé, o joelho… Que explica em detalhes o que cada um tem, os exercícios que fará e quanto tempo demorará para se curar ou se a batalha será eterna.
Vejo o sorriso de tranquilidade que Cláudio transmite quando a maioria dos pacientes resolvem chamá-lo ao mesmo tempo. A presteza dele em colocar bolsas de água quente ou de gelo nos caras pálidas, para diminuir o incômodo e prepará-los para partirem para o martírio ou relaxar após ele.
O ambiente é agradável, com tiradas engraçadas por parte dos pacientes que zoam pedindo arrego ao homem de jaleco branco, que a todo instante exige deles maior empenho e menos choro. Todos carregam dores que vão sendo amenizadas com exercícios muitas vezes longos, incômodos e esquisitos.
Gemem, reclamam das estranhas posições, mas depois se entregam aos efeitos da endorfina e se despedem aliviados em um até amanhã.
Por fim, vejo sorrisos dos pacientes em agradecimento ao fisioterapeuta quando terminam o tratamento. Seguem aliviados os que já podem voltar a rotina sem dores.
A última orientação de Cláudio é para eles se exercitem sempre, pois se não se cuidarem, correm o risco de terem que voltar de novo a esse lugar peculiar e ao convívio com a galera das mais esdrúxulas posições.