Vidas em contos

(por Rita Prates)

Um lugar peculiar com as mais esdrúxulas posições

Vejo mãos subindo pelas paredes como se estivessem procurando formigas ou teclando uma música imaginária. Vejo pés que levam e trazem carrinhos de rolimã em ritmos contados e recontados.

Vejo mãos que gemem quando o dedão recebe o comprimento dos outros dedos; que se abrem e fecham; que se espreguiçam e se encolhem, que recebem massagem e dão massagens; que rodam bolas prá lá e prá cá, que puxam uma cordinha com uma mão e esticam com outra em um vai e vem lento e doloroso.

Vejo pernas puxadas para cima e na diagonal em uma faixa presa aos pés; que carregam pesos em um sobe e desce prá direita e prá esquerda, prá cima e prá baixo, de um lado e de outro, e por fim descansam exaustas.

Vejo bumbuns que sobem e descem; pernas e braços que se erguem juntos para cima como uma mosca morta, ficam alguns segundos parados, e quando descem vem seguidos de gemidos e suores.

Vejo pessoas que imitam gatos, ficam de quatro ao esticar braço e perna opostos e tentam não tremer; fitas elásticas sendo puxadas de várias maneiras para fortalecerem músculos dos braços e acalmar o bico de papagaio ou os ombros arriados.

Vejo pessoas com as costas grudadas na parede como se estivessem à espera de serem crucificadas, mas a cada segundo se desprendem da amurada e se prendem de novo para fortificar o esqueleto doído e, por fim, elas com os traseiros grudados em uma bola descem e sobem na inerte parede com o suor escorrendo pelo rosto em fogo.

Vejo curiosos que forçam o corpo para frente com os braços no contorno da porta para espiar o que há lá dentro; que ficam em cima de uma bola cheia de gomos em um balanço frenético para se equilibrarem.

Vejo pessoas sentadas e a cada segundo chuta uma bola imaginária; outras abraçam as pernas e formam um quatro no ar; algumas viram tatu bola; também há aquelas que se alongam nos degraus da escada ou se inclinam em uma rampa para esticarem os músculos encurtados das pernas.

Vejo braços que levantam bastões nas costas e os que balançam um peso na mão como um pêndulo de relógio. Pessoas que viram o pescoço para um lado e para outro, e fazem movimentos diversos com os ombros que resistem em relaxar.

Nesse incrível mundo de pacientes em busca de alívio para as dores do corpo vejo homens e mulheres que contam as suas dores da alma. Uma mulher contou que encontrou o ex noivo na rua de braço dado com outra, descreveu para as pessoas a sua volta o quanto sofreu com ele, desde as agressões verbais até as físicas.

Outra que falou da depressão que teve por ter de parar de dançar devido as fortes dores na coluna, e o idoso que se queixou dos filhos que se esqueceram do seu aniversário e quase nunca o procuram. Assim, durante os exercícios eles aproveitam para contar os seus perrengues pessoais aos colegas de dores físicas e emocionais.

Vejo Cláudio, o homem do jaleco longo e branco que pergunta a cada pessoa que chega como se sente. Conhece o nome de todos e onde lhes dói: o ombro, as costas, a bacia, as pernas, o pé, o joelho… Que explica em detalhes o que cada um tem, os exercícios que fará e quanto tempo demorará para se curar ou se a batalha será eterna.

Vejo o sorriso de tranquilidade que Cláudio transmite quando a maioria dos pacientes resolvem chamá-lo ao mesmo tempo. A presteza dele em colocar bolsas de água quente ou de gelo nos caras pálidas, para diminuir o incômodo e prepará-los para partirem para o martírio ou relaxar após ele.

O ambiente é agradável, com tiradas engraçadas por parte dos pacientes que zoam pedindo arrego ao homem de jaleco branco, que a todo instante exige deles maior empenho e menos choro. Todos carregam dores que vão sendo amenizadas com exercícios muitas vezes longos, incômodos e esquisitos.

Gemem, reclamam das estranhas posições, mas depois se entregam aos efeitos da endorfina e se despedem aliviados em um até amanhã.

Por fim, vejo sorrisos dos pacientes em agradecimento ao fisioterapeuta quando terminam o tratamento. Seguem aliviados os que já podem voltar a rotina sem dores.

A última orientação de Cláudio é para eles se exercitem sempre, pois se não se cuidarem, correm o risco de terem que voltar de novo a esse lugar peculiar e ao convívio com a galera das mais esdrúxulas posições.

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Publicado em 4 de janeiro de 2022 por .