Vidas em contos

(por Rita Prates)

Ainda existem Cinderelas

Todos os meus casos são reais, procuro contá-los sem perder o foco nos detalhes, nos pormenores que me fazem perder o fôlego, e nos segredos que    querem que sejam revelados. Muitos me perguntam se são verdade os contos que conto. Não minto, às vezes omito fatos para preservar quem me contou, mesmo sendo autorizada a deixar o caso fluir sem cortes. A história desta moça mais parece um conto de fadas, você pode duvidar, mas que aconteceu, aconteceu.

Quem não gostaria de ser uma cinderela nos dias de hoje?

Quando Maria chegou na casa para trabalhar como doméstica, os rapazes acharam que ela não ia dar conta dos afazeres da cobertura. Baixinha, muito magrinha, era uma verdadeira sobrevivente da seca do interior de Minas Gerais. Ela ficou assustada com tamanho luxo e eles sensibilizados com o aspecto frágil e humilde da moça.

Resolveram primeiro dar uma garibada em Maria, como aqueles programas de TV que transformam um patinho feio em cisne. Compraram roupas, sapatos e tudo que uma mulher precisa para ficar apresentável. O corte no cabelo destacou o rosto fino e os olhos miúdos que se perdiam em uma cabeleira assustada e entrelaçada pelo pó da estrada. Tiveram trabalho em escolher calçados que se adequassem aos dedos disformes, que se juntavam uns sobre os outros, como se estivessem se protegendo das pedras do caminho.

Encantada com a nova aparência, Maria contou aos patrões que desde pequena a mãe sempre arrumava uma desculpa para não leva-la em passeios ou em festas com as irmãs. Com o tempo percebeu que a família sentia vergonha dela por ser feiosa e mal arrumada.

– Sim, sei que sou esquisita e desengonçada, disse em desabafo Maria.  – E, para piorar, os meus dedos dos pés são amontoados e as pessoas caçoam de mim.

Os rapazes sentiram que tinham uma missão pelo caminho, preparar Maria para uma nova vida, menos seca e amarga.  Quando a viram usando as mãos para moldar a comida, levá-la à boca, e depois lamber os dedos, perguntaram porque não comia com os talheres. Ela, simplória, disse que desde pequena fazia capitão, pois não sabia como usar o garfo.

Eles a ensinaram a usar todos os talheres, a conversar com calma sem atropelar as palavras, a receber visitas, servir a mesa e todos os afazeres de uma dona de casa. Aos poucos foram aparando as arestas e dando a Maria um novo e rico contorno na autoestima e na sua forma de agir.

Com o tempo Maria começou a engordar e a barriga a estufar.  Primeiro acharam que era a fartura de comida que a fazia mais cheinha. Não pensaram em outra coisa, porque ela mal saia de casa, tudo era temeroso demais para ela fora da porta de entrada.

De repente, ao servir o almoço Maria desmorona, literalmente cai no chão e não consegue se levantar. O patrão a carrega nos braços até o pronto atendimento. Lá eles tiram a roupa de Maria e ele constrangido se vê frente a frente com a nudez da mulher. Tentou sair da sala, mas a médica o encarou com um olhar suspeito, pensando, talvez, como um jovem estrangeiro, bonito e elegante teve um caso com a funcionária tão simplória.

A médica queria saber se ele era o pai. Pânico total, como explicar que ele era apenas o patrão, que não estava a fim do babado, e que era a primeira vez que via a mulher pelada. Maria constrangida disse a médica que não negoçava há mais de anos.

 _ Sou inocente, quis gritar o patrão. – Me tirem dessa enrascada.

Transferiram Maria para um bom hospital, e após vários exames constataram que não existia gravidez, e sim barriga d’água provocada pela esquistossomose. Alívio para os eles e tratamento para Maria.

Adaptada e mais confiante os patrões incentivaram Maria a estudar, e com o tempo a moça humilde se formou em auxiliar de enfermagem. Maria aprendeu a usar o celular e passou a ligar para as amigas, mandar mensagens e fotos.

Ana, uma colega de infância de Maria foi para Paris trabalhar em uma casa de família. Solitária, conseguiu conectar-se com Maria e passaram a trocar mensagens e confidencias. Em um encontro com amigos a foto de Maria foi parar nas mãos de um parisiense conhecido de Ana. A imagem de Maria deu match nas pupilas e no coração do francês que ficou encantado com a brasileira, achou-a bonita e atrativa.

Segundo ele, uma força esmagadora de sentimentos o fazia pensar em Maria dia e noite. Passaram a corresponder. Fácil para ele que era filho de portuguesa com um francês. O rapaz ficou cada dia mais atraído por Maria, e, por fim, convidou-a a visitá-lo em Paris.

Ela explicou que não tinha dinheiro para viajar. Ele não se deu por vencido e enviou as passagens. Assustada e indecisa tinha medo de se aventurar. Os patrões a apoiaram, pois ela não tinha nada a perder.

– Vá conhecê-lo, e se não gostar, volte para casa. – Disseram os rapazes, que pressentiram que era a oportunidade dela sair do casulo.  

Maria que só havia viajado da sua cidade para a capital, surpreendeu a todos quando alçou voo em direção a Portugal, fez conexão sozinha e chegou a Paris cheia de si. Como ela conseguiu fazer isso sem ser barrada no baile ninguém sabe, mas Maria sim, armou-se de confiança, abraçou a grande chance da sua vida e pulou no lombo do cavalo alado que a levou para os braços do francês apaixonado.

Ele não se decepcionou quando a encontrou no aeroporto. Ela era a mulher mais encantadora que os seus olhos já viram. Se para os outros ela era desprovida de beleza, para ele não tinha defeitos, só virtudes. Porém para a mãe portuguesa do rapaz ela era sem atrativos, desmilinguida e sem recursos. Cego de amor o rapaz em uma semana pediu Maria em casamento.  Ela, incrédula, disse sim. Jamais poderia imaginar casar-se com um homem de posses, engenheiro, e viver em Paris.

Nesses vinte anos Maria não deixou a carruagem virar abóbora. Soube conquistar o seu espaço, fez vários cursos e se tornou assistente de enfermagem em uma clínica de cuidadores especializados em home care. Maria aos poucos cativou a sogra, que hoje não abre mão de ser cuidada pela nora, mas lamenta dela não ter lhe dado netos. Mesmo com o passar dos anos o marido é encantado com Maria, que o enfeitiça com dengos e cuidados.

Quando o casal vem ao Brasil vão visitar a família, e ela procura sempre ajudar os parentes em dificuldade. Porém Maria não abre mão de se encontrar com os patrões, pois eles fazem parte de sua trajetória de vida. Jamais se esquecerá que chegou na casa deles como uma gata borralheira, pedra bruta que foi lapidada com primor, e, como em uma lenda, um príncipe francês viu-a em uma foto, apaixonou-se e fez dela a sua eterna Cinderela

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Publicado em 8 de abril de 2022 por .