Vidas em contos

(por Rita Prates)

Nu com a mão no bolso

– Conte para ela do peladão que ficava fazendo poses na entrada da praia de nudismo.

Disse o meu amigo ao seu companheiro, enquanto o som da banda invadia a mesa do bar sedenta de bons papos.

– Como assim? Perguntei.

– Os dois se aproximaram de mim, trocaram olhares marotos e contaram da aventura deles na praia de nudismo.

– Estávamos parados na entrada da praia de nudismo e eu chamei Ivo para entrarmos, falou Alex.  Ele, indeciso, relutava em seguir  adiante. Tirei a roupa para incentivá-lo a partir para a aventura. Ao virar para arrastá-lo, vi um ser pelado correndo em direção a praia. O reconheci pelo bumbum branco.

– Ele é sempre assim, impulsivo, e quando fica em dúvida, decide no tranco. Disse Alex, que aproveitou para dar uma piscadela sapeca que atingiu Ivo, e o deixou vexado.

Quando Alex o alcançou, Ivo estava estático, hipnotizado ao ver um deus grego que estava parado ao lado da primeira barraca de bebidas. Parecia uma estátua dourada, sem nenhuma marca no corpo, totalmente depilado, corpo esculpido em academia. Os cabelos descoloridos lhe davam um ar de falsa juventude. No rosto másculo um sorriso de satisfação, e os olhos acompanhavam em êxtase a reação de admiração dos transeuntes.

– Há! Esqueceu um detalhe, completou Ivo com ares de malícia. Lembrou-se que o deus grego de tempo em tempo mudava de posição, para receber o sol forte que lhe atravessava todo o corpo com os seus raios massageadores de ego. Estava bronzeado da cabeça aos pés, inclusive na sua armadura grande e larga, não condizente com as verdadeiras imagens desses deuses. 

Seguiram em frente e perceberam felizes que não eram os únicos que tinham pneuzinhos espalhados pelo corpo. Também o tamanho do documento não importava, já que a variedade de pêndulos que balançavam de um lado para outro, não afetavam o humor dos pequenos e nem dos bem dotados.

O mesmo se dava com as mulheres; umas com peitos firmes, outros pequenos, grandes, atentos, deprimidos ou siliconados. O mesmo se dava com os bumbuns, viram de tudo, dos acanhados aos gigantes e dos firmes aos arriados. O melhor de tudo era que os felizes frequentadores aproveitavam a praia indiferentes as comparações. Os corpos seguiam libertos, tranquilos, e a única preocupação era com o uso de protetor solar.

A praia era lindíssima. Porém o mar não se continha de inveja em ver tantos corpos nus e sem amaras. Maquiavélico,  jogava as suas ondas sobre os aventureiros, se divertindo em assustá-los. As ondas cresciam gigantescas, os agarravam, revirava-os até a exaustão e os devolviam a milanesa na praia.

Enquanto os meus amigos me contavam da aventura, lembrei-me da história de um casal de conhecidos  que se mudaram em pleno verão para a Alemanha. O marido ao chegar em casa, contou para a mulher que ele havia passeado pelo parque, e se surpreendeu ao ver pessoas nuas tomando sol na grama e praticando esportes completamente pelados.

Passado um tempo a mulher disse ao marido que precisava comprar cigarros. Desculpa perigosa da maioria dos fujões. Ela seguiu direto para o parque, pois queria ver se era verdade o que ele havia lhe dito ou se estava zoando dela.

Que nada! Lá estavam eles pelados, quase transparentes se expondo ao sol, alheios às ardências futuras. Alguns estavam estendidos em toalhas, sentados batendo papo, curtindo um piquenique com amigos ou jogando bola. Ela mal pode acreditar no que via.

Chamou a atenção uma mulher com o corpo todo tatuado que brincava com uma criança. Na sua pele tinha aves de todos os tamanhos. Lindas, coloridas, que sem pudor voavam pelas costas, nádegas, formavam ninhos na barriga, seguiam em bando pelos braços e pernas e paravam próximas aos seios onde emitiam notas musicais. Admirável ver a perfeição das aves e a coragem da mulher em se tornar uma obra de arte itinerante

Minha amiga sentou-se discreta na grama para assistir a uma partida de vôlei. Os moços balançavam peitos, bundas e bimbas no ritmo do jogo. Caiam, se abraçavam, comemoravam relaxados e nus, naturalmente nus.

Uma mão lhe tocou as costas. Assustou-se, e ao se virar para ver quem era, deparou com o marido que começou a tirar as roupas e as jogar sobre ela. Ele nu sentou-se ao seu lado e perguntou se ela não iria fazer o mesmo. Ela se viu sem ação, então ele a ajudou a se despir, mas por pudor ela permaneceu com as roupas íntimas.

Voltando aos meus amigos, eles disseram que na praia havia uma barraca de bebidas lotada de clientes. Quem atendia era uma moça sorridente, atenta a duas crianças que brincavam perto do balcão. O mais interessante era que ela estava com um vestido longo coberto de paetês da cor vermelha. O vestido brilhava e refletia raios coloridos ao andar de mãos dadas com o sol. Ouviram de um frequentador que ela, todos os dia, desfilava com um vestido de cor diferente de paetês, e, como uma sereia, atraia com o  seu brilho a atenção da freguesia.

E para encerrar o passeio, contaram que quando estavam indo embora da praia, depararam novamente com o Apolo sem a capa divina. Ele fazia poses no mesmo lugar. Incansável, exposto a um sol escaldante cujos raios iluminavam o seu tronco firme, escorriam pelas costas e desaguavam no bumbum  definido. Afirmaram que jamais esqueceriam do deus grego tão magnífico, robusto e bem aventurado. Atração bizarra da praia de nudismo.

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Publicado em 22 de abril de 2022 por .