Quando Laura ficou sabendo que eu conhecia boa parte de sua vida, resolveu me contar em detalhes a sua história de amor. Fiquei na dúvida se começaria descrevendo Laura sentada em uma cadeira de balanço fazendo crochê e pensando na sua alforria. Faltavam seis meses para a sua filha se formar em medicina em uma faculdade particular, contava os dias para se libertar das altas mensalidades e se aposentar de fato.
Resolvi começar com Laura aos dezesseis anos no auge da juventude. Adorava o irmão militar, mas detestava ir nas festas do Colégio Naval com ele, pois era sinónimo de chá de cadeira. Dançar só com ele, com os outros rapazes ficaria falada, logo passava a maior parte da festa sentada, o que a deixava injuriada.
O irmão de Laura a apresentou a um colega do colégio, Paulo, que logo se encantou por Laura. Futrica daqui, futrica dali, e não é que o rapaz era primo distante, tipo; a sua avó era irmã da bisavó dela. Os flertes foram aumentando a cada folga da escola e o namoro foi apoiado por toda a família, principalmente pela avó que sonhava em ver a Laura casada com o jovem militar.
A sábia senhora notou que a neta não estava entusiasmada com o namoro. Logo apelou para os santos, pedindo para que os jovens se casassem. Pegava duas velas, juntava os pavios e os acendia. Porém, as velas tombavam cada uma para um lado. A avó inconformada com a mensagem do além, unia os pavios com um prendedor e os acendiam, mesmo com as velas em protesto negando a união.
Quando Laura ficou sabendo da rebeldia das velas, ficou aliviada. O casamento de seus pais foi arranjado pela avó, porém Laura se achava muito jovem para se casar, ter filhos, lavar e passar fardas. Acho que as velas entenderam o recado, e Laura aproveitou a mensagem e deu fim ao namoro.
A desilusão amorosa aos vinte anos deixou Paulo atordoado e amargurado. O irmão de Laura tentou contornar a situação apresentando Paulo para as amigas, ele não queria, estava desiludido. Por fim, aceitou conhecer a irmã da namorada do amigo.
Ao conhecer a família da moça, o coração de Paulo deu voltas no ar, pulou de paraquedas e caiu nos braços da mãe da garota, vinte anos mais velha do que ele. Era uma mulher vistosa, artista plástica e culta. Paulo encontrou consolo nos braços envolventes e experientes da futura ex-sogra. Casaram, para surpresa de todos, e viveram 38 anos juntos até ela falecer.
Laura teve alguns namorados e acabou se casando com um divorciado, pai de duas crianças. Ao completar dez anos de casada queria muito engravidar. O marido em hipótese alguma aceitava ter mais filhos. Então ela resolveu se separar e foi morar com os pais. O desejo entre eles continuava forte, e entre cobranças e negativas, entre beijos e sexo ela engravidou.
Quando Laura feliz contou ao marido da gravidez, ele enlouqueceu. Não aceitou, alegou que ela tinha armado para engravidar. Ele a abandonou. Nasceu uma linda menina, que durante anos teve raros momentos de convívio com o pai.
Laura mantem contato com a primeira e a última mulher do ex-marido, para que a filha conviva com os irmãos paternos. Na busca de recuperar o tempo perdido, hoje pai e filha procuram cicatrizarem as feridas e encontrarem uma forma de viverem em harmonia.
A vida de Laura deu uma reviravolta quando a esposa de Paulo morreu. Depois de um tempo de luto e reequilíbrio Paulo percebeu que havia um sonho de juventude inacabado, conquistar Laura.
Não se viram durante todos estes anos, mas Paulo sabia que Laura tinha uma dura jornada de trabalho, que optou em se dedicar integralmente a filha, e que há anos vivia sem um companheiro. Era hora de agir. Procurou pela ex-sogra, que sábia como a avó, convidou Paulo, Laura e toda a família para uma festa junina no bairro.
Para Laura o reencontro com Paulo significava rever um amigo e não reconstruir a vida ao lado dele, afinal o seu coração estava aposentado, bloqueado para o amor. Insegura, não sabia como agir. Há anos não sentia o abraço de um homem, o sorriso de cumplicidade, o entregar em gozo. Com medo quase desceu do ônibus e voltou para casa.
Ninguém da família apareceu na festa, Ele esperou por Laura na praça, com o coração em turbilhão. Ao se encontrarem se viram mudados, as marcas dos anos não apagaram os traços da juventude guardados no tempo. Reconheceram-se no olhar, no sorriso discreto, no tremor das mãos e no abraço tímido.
Andaram tropeçando em palavras, escorregando em lembranças até pararem em um bar para acertarem os pontos soltos do passado. Falaram de encontros e desencontros, das vidas paralelas vistas nas velas da avó, e do tempo quase sem tempo.
Ambos estavam na casa dos sessenta anos, em um novo ciclo de vida. Paulo via o acelerar do relógio, não podia esperar. Tinham que viver o agora. Sem pestanejar pediu a Laura mais uma chance, pois o momento de saborearem as delícias da vida transcorria em passos rápidos.
Cada novo encontro era um desafio para ambos. Laura havia se esquecido do prazer da ser admirada, querida, amada. Sentia-se insegura, com receio de Paulo acordar do sonho de juventude e tudo virar poeira na sua estrada solitária.
Para Paulo o grande desafio era reconquistá-la para sempre, de provar que o seu amor não era só coberto de recordações, mas de planos a dois para o futuro.
Às vésperas de parar de trabalhar, Laura recebia longos e-mails com declarações amorosas de um Paulo ainda jovem e apaixonado. Surpreendia-se com o que ele escrevia, e sem saber o que responder, lhe enviava um “UI”. Jamais poderia imaginar que de alguma forma pudesse despertar o interesse de um homem, qualquer homem.
Após tantos anos sem namorar Laura se sentia tímida e envergonhada ao lado de Paulo. Não precisava, Paulo teve a paciência e a virtude de mostrar para Laura o quanto é bom amar e ser amado. Foi despertando nela o desejo de estarem juntos, em sintonia com o amor.
Há 8 anos vivem intensamente, aproveitam cada momento com cumplicidade, desatando os nós do tempo perdido. Quanto à cadeira de balanço, ficou sem função, abandonada na varanda à procura de uma nova dona.
Laura se lembra da avó. Olha para as estrelas e afirma que de onde ela estiver, deve estar feliz de ver que as velas agora estão unidas.
Paulo sempre romântico escreve poesias, compõe músicas e se diverte com Laura por este mundão afora.
Laura retribui este amor com ternura e certeza de que há uma cumplicidade amorosa semeada desde a juventude, e que agora colhem na madurez.