Ele, o bonitão, não sabia como se controlar. Amava a noiva e em breve casariam, mas as escapulidas faziam parte do seu universo de seduções. Era difícil resistir a um rabo de saia, e se justa, justiça seja feita, não desprezar, para não se arrepender.
Assim vivia Ivo, que viu a uva e a engoliu inteira. Assim seguia Ivo se dizendo apaixonado. Nem um pouco de batimento cardíaco acelerado entre beijos e abraços.
Sentia-se blindado por novas paixões. Tinha as mulheres que queria, as cantava com doçura, as enlaçava com força e as seduzia na cama, na grama, na poltrona da sala ou na escada entre despedidas.
Um dia a viu na rua, o coração disparou como uma locomotiva, era assim que sentia com a noiva, principalmente quando ela ameaçava deixá-lo
A garota inocente foi no papo da raposa, e se entregou às escondidas no banco de trás do carro. O encaixe foi cheio de peripécias, pernas para cima, escorregos no banco, porta aberta até que ocorreu o encaixe. Ela era virgem e bela.
Tentou se controlar nos outros encontros, mas o prazer de tê-la nos braços o fez perder o juízo. De repente, grávida. Grávida há cinquenta anos atrás era compromisso sério para um casamento às pressas. A noiva oficial se desfez em lágrimas e se refez em sombras.
Casamento consagrado com três filhos em carreirinha. Ele sentiu-se dividido, amava a esposa e amava a ex-noiva. As duas o seduziam, as duas o amavam, e ele as amava como nenhuma outra que continuou a atravessar o seu caminho.
Os anos passaram entre os dois amores e mais atropelos e esbarrões nas saias e nas saídas a trabalho. Os filhos cresceram, casaram e descasaram. A mulher, depois de anos de suspeitas, brigas por ciúmes, de separações e reconciliações, assumiu que não conseguiria viver sem ele.
A doença e a morte da esposa o deixaram triste, e entre declarações de amor se despediu da sua amada.
Ele já entrando na casa dos setenta anos se viu só, mas o outro amor sempre a sua disposição, não o deixaria abandonado. Precisava acabar com o ciclo interrompido, casar com a outra mulher de sua vida, aquela que lhe esperou anos para oficializarem uma união interrompida.
Ele disse para as filhas que tinha que reparar o passado, honrar a sua palavra de homem e se casar com o outro amor da sua vida. Uma filha se rebelou, lembrou-se da mãe que o acusava de ainda se encontrar com a ex-noiva que ele sempre negou, apesar dos dedos em cruz.
Ele não a traia, traição seria com outras mulheres, isso ficou no passado. Hoje, olha as mulheres bonitas que passam pela rua, roupas curtas, pele nua. Agora, só olha.
Quando a filha rebelde se preparou para conheceu a futura madrasta, fez um jantar com asinhas de frango para que ela engasgasse. Colocou uma sandalha alta que a fez ultrapassar um metro e setenta e um vestido fatal para arrasar.
Quando eles chegaram, ela se viu diante de uma mulher um ano mais velha que o pai, pequena, de pele lisa, olhos azuis e um sorriso comedido. Envergonhada, chutou a sandália para debaixo do sofá. Recebeu-os na sala com os pés no chão.
Ao servir as asinhas, pediu para que a futura madrasta tivesse cuidado para não engasgar, não queria ser responsável por uma fatalidade. A noiva a ganhou com a sua simplicidade e o olhar apaixonado para o seu pai.
Percebeu a doçura daquela mulher que atravessou anos e anos a espera de um sim no altar. Desse dia em diante não teve como não concordar com a união.
Os noivos fizeram questão de se casarem na igreja. Ele, com setenta e um e ela com setenta dois anos juraram fidelidade e amor até que a morte os separasse.
Cinco anos se passaram, estão juntos cheios de energia e planos. Ele sente-se realizado de ter casado com os dois amores de sua vida Ela de ter realizado o seu grande sonho, o de se casar com o homem que amou e amará por toda a sua vida. E como em um filme de amor, tiveram um final feliz.
The end