Vidas em contos

(por Rita Prates)

A amante do meu ex-marido

Estava lendo um livro no sofá da sala quando o celular tocou e vi surgir a figura bonitona de minha amiga. Mesmo agora que ela deixou de pintar os cabelos e os deixou brancos, continua uma mulher bonita em cima de um salto 12 aos setenta anos.

Começou falando de um vídeo que eu havia lhe mandado. Comentamos sobre ele e aos poucos mudou o rumo da conversa e chegou onde queria: falar sobre o ex-marido e o que ele andava aprontando.

Separaram há uns quinze anos, eles formavam um bonito casal. Ela sempre elegante, mesmo se estivesse descabelada, o que nunca aconteceu, pois quando a olho me dá a impressão que, ao nascer, recebeu a classificação: mulher classe A. Mesmo agora sem dinheiro e separada do marido não perdeu a postura e nem a beleza com o passar dos anos.

O marido, garanhão nato, não podia ver um rabo de saia que atacava, mas com o tempo ela cansou. Cansou de suas estripulias, de seus devaneios e de seus descompromissos com o trabalho. Aos poucos foram perdendo tudo; dinheiro, apartamento e sítio. A separação foi inevitável quando no auge das dificuldades ele arrumou uma amante.

Ele não perdeu a pose e, percebendo que a melhor saída era arranjar uma mulher madura e rica para sustentá-lo, foi à luta. Nessa árdua caminhada ficou primeiro com uma fazendeira quase dez anos mais velha do que ele, depois tropeçou em uma juíza sem juízo, que entre uma ação e outra o sentenciou a procurar uma nova otária para sustentá-lo. Por fim, ele conseguiu uma rica funcionária pública aposentada e carente que, além de lhe garantir sustento e mordomias, ainda o brindou casando-se com ele.

Durante esse período a minha amiga bonitona não teve a mesma sorte. Ela recebeu algumas cantadas desafinadas e um início de affaire platônico com um ex-amigo do ex-marido, mas a esposa do cara descobriu e tiveram que acabar com relação virtual, via WhatsApp.

– Querida! Sabe da última que o meu ex-marido aprontou? Arranjou uma amante! – Disse com uma voz rouca, com tom de suspense.

– O que! Ele não sossegou? – falei surpresa.

– Preciso te contar uma coisa hilária, ninguém da minha família sabe – disse ela entre risos e certo acanhamento misturado com contentamento – a amante sou eu.

– Como assim!? Conte-me nos mínimos detalhes – falei curiosa.

– Pois é! – suspirou ela – ele estava me cercando desde antes do natal. Começou me dando uma pequena mesada, depois me convidava para almoçar e quando fiquei sabendo que ele queria se separar da esposa, resolvi interferir.

– Pensei… Se ele se separar da mulher vai ficar sem lugar para morar e vai sobrar para mim, como das últimas vezes quando tive que hospedá-lo durante alguns meses até ele arranjar outra – imposição dos meus filhos que não estavam dispostos a cuidar do pai.

– Não tive papas na língua – falou com ênfase – enviei um recado por telefone para que ele caísse na real. Disse-lhe que estava maluco, que aos setenta e oito anos não conseguiria mais outra mulher para dar-lhe mesada, pagar o seu convênio, morar em um ótimo apartamento e ter o carro do ano. O puxão de orelha deu certo, pois ele sossegou o facho.

– Depois do ocorrido começamos a trocar mensagens engraçadas pelo celular, depois apimentadas e por fim provocativas. Há duas semanas ele foi comigo visitar um amigo que está muito doente, e ao me deixar em casa me agarrou na sala e me levou para o quarto num fogo só.

– Criatura! – falou quase sussurrando – você sabe que ele teve câncer e usa uma prótese, acho que ele estava nervoso e o negócio funcionou meio bambo, mas na segunda vez que nos encontramos ele deu três mais caprichadas, pode acreditar? Três!

– Ele me disse que tem muito tesão, que sempre teve vontade de me ter em seus braços novamente e que eu nunca lhe saí da cabeça. Se for verdade ou não, pouco importa. Estou achando ótimo, pois estava a mais de uma década sem sexo, hibernada. Não temos o mesmo fogo do passado, mas é muito bom ser abraçada e desejada novamente.

– Como beata de igreja, jamais pensaria que um dia me tornaria amante, ainda mais do meu ex. Descartei a culpa, pois quando penso nos meus setenta anos que escorregam por entre os dedos, no bilau dele que conheço tão bem há mais de trinta anos, não me sinto pecadora, considero que é uma infração leve.

– Os meus filhos não podem saber, pois jamais concordarão devido ao que ele aprontou comigo todos esses anos. Na verdade acho que chutei o balde, ainda acredito que posso arranjar alguém melhor do que ele, mas enquanto espero chegar o avô do príncipe encantado vou-me distraindo com o vassalo safado que está me revigorando.

Há muito eu não a via com tanta disposição e humor. Antes de se despedir, me disse que começou um regime para emagrecer dez quilos, que voltou a fazer caminhadas, a ler, pois quer ficar saudável mentalmente e fisicamente para usufruir do novo status: amante do ex-marido.

Ao desligar o telefone me mandou uma mensagem: “KKKK…a minha mãe dizia: Vitamina H faz bem para a pele e para a alma!”

 

 

 

Deixe um comentário

Informação

Publicado em 24 de janeiro de 2019 por .