Vidas em contos

(por Rita Prates)

O GRINGO E A CRIACA

O final de uma relação entre casais acaba quase sempre com muitas lágrimas, gritos e às vezes suplicas de não me abandone. Um ou outra segue levando vantagem e sai abastecido de bens e dinheiro deixando em penúria quem ficou para trás.

Um amigo me contou a história de seu ex-chefe, um americano que tinha um altíssimo cargo em uma multinacional, acima dele só o conselho, dá para  perceber o nível do sujeito. O gringo possuía veleiro, apartamentos, uma mansão com vista para o mar em um dos lugares mais lindos do Rio, carros importados e vivia no meio da alta sociedade com festas regadas a artistas famosos e políticos de toda estirpe.

Logo que pisou na pátria amada se apaixonou por uma brasileira dona de um corpo moldado em academias e clinicas de preenchimentos. Era uma morena bonita que lembrava a linhagem das mulheres samambaia, melão, melancia e outras frutas mais.

Tanta carne e tantos atributos fizeram com que o gringo abandonasse a atual esposa e se casasse com a jovem e vigorosa mulher criaca. Ele gostava de falar em alto tom que adorava latinas, pois são mais fogosas e atraentes, mas não imaginava o temperamento forte e aguerrido da carioca da gema com quem se casou.

Meu amigo resolveu me contar algumas paradas presenciadas por ele ocorridas com o casal, para explicar porque nomeou a mulher do chefe de barraqueira.

A jovem esposa adorava carnaval e o gringo caipirinha. Todos os anos ele ficava no camarote enchendo a cara de cachaça enquanto ela desfilava pela avenida em uma, duas, três em até quatro escolas de samba. Esbanjava alegria dançando, se esfregando nos passistas e nos morenos robustos e sensuais salpicados de purpurina. Ele ficava tonto e perdia de vista a fogosa mulher. Esperta, ela aproveitava os vacilos do marido e se atracava com os membros das escolas nos escurinhos da avenida.

O casal gostava de receber amigos na mansão. Ele estava acostumado a promover festas com requinte e, aos poucos, ia ensinando a mulher algumas regras de etiqueta. Em uma dessas festas em que convidaram todos os diretores da empresa com as suas respectivas esposas, ela promoveu uma saia justa que até hoje é comentado nos bastidores.

A criaca reservou um espaço na sala de entrada para que os convidados tirassem os seus sapatos e fossem descalços para o salão de festas. Ela vivenciou isso em um curso de Feng Shui e achou fashion iniciar harmonização do ambiente justamente no dia da festa da diretoria. O constrangimento foi geral, principalmente entre as mulheres que adoram exibir roupas e sapatos de grife.

O pior veio a seguir, um dos diretores usava uma prótese no pé que se encaixava diretamente no sapato. O gringo vendo a aflição do homem em se manter em pé com a peça arredondada na ponta  pediu à esposa que abrisse uma exceção à regra, mas ela não cedeu, e o coitado do diretor teve que se abraçar a esposa e ir quicando até se sentar em um sofá, sob os olhares incrédulos dos convidados.

Irado, mas contido, o homem passou toda a noite sem poder se levantar para não se espatifar no chão lustroso do salão. O diretor manco era conhecido pelos seus acessos de fúria com os funcionários na empresa, logo, sabiam que se ele pudesse, partiria a cabeça da mulher do presidente com a prótese, devido aos olhares de zombo e piedade que teve que tolerar durante a festa.

Outro fato vexamoso foi quando o gringo convidou o meu amigo para almoçar em um restaurante japonês junto com a esposa. Corria tudo bem até que ela começou a beber saquê como se fosse água. Depois de muitos goles a mulher ficou alterada e começou a falar e rir alto. Quando o marido pediu para que ela parasse de beber o barraco começou, quanto mais ele falava mais ela gritava. Todos os clientes, a maioria japonês, ficaram incomodados e perplexos com o show.

O gringo saiu nervoso do restaurante, a mulher descontrolada e cambaleando  gritava que só iria embora se o marido voltasse para busca-la. Meu amigo envergonhado tentava acalma-la. Ficou mais aflito ao perceber que os clientes olhavam para eles com reprovação e ao mesmo tempo como se pedissem, ou melhor, implorasse, para que ele tirasse a barraqueira dali imediatamente.

A vontade dele era de sair correndo, mas como chefe é chefe, foi atrás do gringo e o avistou na esquina fumando nervoso um cigarro. Explicou que a situação estava insustentável, e que ele retornasse imediatamente ao restaurante e levasse a mulher embora, antes que os clientes a obrigasse a cometer um haraquiri.

O surpreendente na história desse casal foi o fato da criaca descobrir que o seu gringo submisso tinha uma amante. Ai o caldo entornou, pois quando uma mulher é chifrada, na maioria das vezes se torna vingativa. Foi o que ela fez, no divórcio arrancou cada centavo do marido deixando-o de bolso vazio, mas ele foi esperto e depositou escondido na conta da amante um bom volume de dinheiro para a sua sobrevivência.

Nesse meio tempo o gringo já alcoólatra perdeu o emprego, e para completar o seu infortúnio a amante teve um AVC. Atônito, viu o seu dinheiro ser enterrado com a sua fiel depositária. Os filhos da dita cuja não lhe devolveram a grana, pois alegaram que serviria de indenização pelo vexame da mãe ser a outra na relação.

A criaca foi quem se deu bem, ficou com o dinheiro do gringo e se casou com outro americano muito mais rico e hoje vive em Miami, mas dizem que ela continua armando barracos em  um inglês pra lá de chulo.

O gringo mané conheceu uma mulher no AA, e hoje vive em um bairro distante, onde tem que pegar o trem da central para chegar em casa. Ele trabalha com bicos e aulas de inglês para sobreviver. Dizem que ficou meio descompensado, pois assiste a mesma programação da Orquestra Sinfônica várias vezes ao mês, e conta repetidamente os mesmos casos do passado quando vivia no mundo dos ricos em uma linda casa com vistas para o mar.

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Publicado em 9 de setembro de 2019 por .