Vidas em contos

(por Rita Prates)

Dona Luiza 9.5 de vitalidade

      A primeira vez que a vi, eu estava na piscina do prédio ouvindo algumas moradoras contarem sobre as suas vidas. As lembranças vinham acompanhada de fotos, casos engraçados e alguns tristes. Histórias que sem dúvida ficarão para os próximos contos. 

São mais de dez senhoras que se encontram para conversarem sobre filhos, novelas, receitas, e tudo que as mantém informadas e unidas. Umas trabalharam com persistência para terem uma aposentadoria que lhes dá conforto, e outras trabalharam com constância, no dia a dia do lar. Hoje, usufruem o lazer do prédio e o prazer de poder conviver entre elas com mais frequência.

De repente chega ela, dona Luiza. Discreta, com um sorriso leve na face cumprimenta a todas. Pequena, corpo delgado, leve no andar, segue firme conduzindo os 95 anos bem vividos. Tranquila puxa uma espreguiçadeira, tira o vestido leve e florido, e sem se preocupar com os olhares ao seu redor, deita com seu biquini de estampa suave.  

Sua alta estima a define, ela é o que é, dona de si mesma. Nota-se que é vaidosa, os cabelos pintados e bem cuidados, assim como as unhas coloridas lhe dão um toque de elegância. Passa com calma o protetor solar, e procura encontrar uma posição adequada para que o sol a acolha e a alimente de vitamina D. 

Nada a incomoda, olhares, conversas a meia voz, surpresas com a sua idade e disposição, fofocas do prédio. Dona Luiza sabe que em comparação com algumas vizinhas ela está a anos luz de vitalidade. Porém, ela tem um diferencial que a engrandece; é discreta, não critica, não lastima e não se incomoda com a vida alheia. Quando opina sobre algo, fala com clareza e sabedoria.

Dona Luiza conta pouco de suas tristezas, mas quando o coração aperta lembra dos entes queridos que já se foram. Recorda os momentos alegres e também das despedidas, das dores sofridas e das saudades eternas. Com sabedoria, procura evitar que a dor da ausência a faça sofrer novamente, e como em um passo de mágica, aparece com um pedaço de bolo feito por ela e juntas saboreamos a vida.

Dona Luiza pensa sempre no que irá fazer de gostoso para vender para as amigas: broas, pasteis, rosca da rainha e delícias mil. Não precisa do dinheiro, mas tem um prazer enorme em cozinhar e costurar. Passa horas confeccionando panos de pratos, passadeiras e encomendas diversas, e sem percebe mais um dia se passou. Não se cansa, sente-se revigorada para pensar nas novas produções.

– Não gosta de quiabo? É porque não comeu o que eu faço. Vou preparar uns sem babas e verá como é gostoso. – Falou decidida.

Fui convidada a almoçar com a dona Luiza e a filha Leda. O prato principal foi um delicioso quiabo picadinho, sequinho com frango e angu. Como todo mineiro, a mesa era farta, e tudo do jeitinho dela, feito com arte, cuidado e sabor. 

Quando jogamos baralho na casa de dona Luiza, primeiro sentimos um cheiro delicioso vindo da cozinha, depois somos surpreendidas com biscoitos quentinhos feitos na hora, broas e outras guloseimas que ela nos oferece com satisfação.  Paramos tudo para nos deliciarmos, conversarmos e agradecemos a gentileza com que ela nos acolhe. 

Aos 95 anos, dona Luíza resolveu aprender a nadar. Sempre teve vontade, mas tinha tanta coisa para fazer que deixou para depois. Agora, que sobrou um tempinho, mergulhou de cabeça no novo projeto. Junto com a professora faz exercícios respiratórios, de pernadas e braçadas na piscina do prédio. Dedicada, não perde uma aula, quer realizar o seu objetivo de nadar com segurança. O que, com certeza, conseguirá.  

Caiu, poucas vezes caiu e se machucou. Nenhum osso quebrado, mas o rosto roxo serviu de alerta. Não se fez de vítima, não culpou o destino, apenas a lombadinha do piso. Brincou com o rosto mascarado, marcado pela queda, porém não deixou de sair e conviver com as amigas. Falou com um leve sorriso, que de agora em diante levantaria mais os pés ao andar, nada de arrastar, nem se descuidar. 

– Tenho que ser mais atenta ao caminhar, pois a semana que vem volto a ter aula de natação. Disse-me calma e sem um pingo de embaraço. 

Com a pandemia se viu limitada. Porém não abriu mão de conviver com as amigas do prédio, usava máscara e distanciamento. Passada as restrições já passeou com a família em São Paulo e agora Dona Luíza quer mais da vida. Quer ir para a praia, admirar a beleza do mar, pisar na areia, deitar em uma espreguiçadeira ouvindo o chiar das ondas e o canto das sereias. Promessa a ser cumprida pelo neto que já lhe deu as coordenadas da próxima aventura. 

Planeja depois fazer outro passeio com as amigas. Só mulheres libertas e alegres. Topamos na hora. Quer mergulhar nas águas mornas do nordeste, andar na praia, passear pela orla, sentir a brisa, curtir a vida e dar boas risadas.

Essa é a dona Luiza, minha querida amiga. Dona de uma energia e vitalidade que nos serve de exemplo quando achamos que o tempo já passou. Assim dona Luiza se move sempre para frente, em cuja cartilha de vida tem quatro palavras que a fazem seguir adiante com firmeza e disposição: fé, sonhos, planos e realizações.

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Publicado em 2 de julho de 2022 por .