Há dias o vejo nostálgico, mostrando-me músicas e letras pertencentes do seu passado. Em alguns momentos vi em seu semblante uma tristeza que lhe custou segurar uma lágrima. Hoje, ao conversarmos, esbarramos novamente em seu passado e assim fomos colocando as cartas de sua vida sobre a mesa em uma rodada de fortes emoções.
O pai era o rei de Espadas; filho de pai libanês e mãe espanhola, e a mãe era a rainha de copas; filha de mãe italiana e pai sírio, uma miscigenação quase explosiva.
A mãe aos vinte e dois anos já tinha quatro filhos e no somatório das gestações teve oito meninos e três meninas. A rainha de copas estava só no jogo e se transformou em vassala. Tinha que executar todas as tarefas domésticas e cuidar de um time de crianças arteiras. O som da voz da mãe de sangue italiano ecoava pela casa aos gritos, e os castigos, os puxões de orelha e as surras faziam parte da rotina da casa.
O sistema de controle da meninada era severo, e para as crianças assustador. Como exemplo, ele conta que na hora do banho a mãe colocava as onze crianças em fila decrescente, e uma a uma ia dando banho e lavando com uma escova os cotovelos e joelhos esfolados de tanto brincar. A mãe não se importava com os choros doídos dos esfregões sobre a pele.
Lembrou-se que quando ela lavava os cabelos da criançada, enfiava os dedos nos seus ouvidos para limpá-los. Disse que ainda sente uma sensação estranha e ruim quando se lembra dos dedos da mãe em cada ouvido. A impressão que dava era que os dedos se encontravam dentro da sua cabeça, devido à força que ela fazia para limpá-los. Odiava passar por essa tortura que o deixava atordoado e dolorido.
A rotina da casa barulhenta era pesada e desgastante, porém o pai não se abalava com os queixumes dos filhos e da mulher. O rei de Espada agia como um senhor feudal. Recordou-se da cena que presenciou várias vezes na hora do almoço, quando a mãe fritava um bife, e se ele não estivesse no ponto, o pai jogava-o fora e mandava fritar outro imediatamente.
Quando a mãe estava grávida do décimo primeiro filho, descobriu que o rei de Espadas a traia com a vizinha que morava em frente de sua casa. Era uma jovem italiana de corpo sedutor e que estava também grávida de seu marido. A reação dos pais da jovem amante foi de desespero, xingamentos e surras homéricas. Por fim ela foi expulsa da casa dos pais e juntou-se com o rei de Espadas.
A separação foi devastadora, como uma bomba que ao explodir deixa feridos por todos os lados. Um turbilhão de emoções e discórdias pairou sobre o casal. As crianças foram separadas como em uma guerra. Um muro se ergueu entre os irmãos e os pais. Os filhos maiores de nove anos ficaram com o pai e os filhos menores com a mãe.
A rainha de copas esgotada emocionalmente com a gravidez, com a traição e com o abandono, acabou, segundo ele, descontando as suas iras e frustações sobre os filhos ao seu comando. As lembranças dessa época são amargas.
Os castigos, as cobranças e a falta do pai causaram traumas até hoje nos filhos menores, onde ele estava inserido por ter oito anos na época. Tornou-se o irmão mais velho daquela nova e dividida família.
A mãe proibiu os filhos sob a sua guarda de conviver com o pai, com os irmãos maiores e com os primos. As crianças ficaram revoltadas ao verem que a outra metade dos irmãos tinham mais liberdade, conforto, menos gritos e castigos. Havia um turbilhão de emoções oprimindo os dois lados do muro de Berlim. Uma mistura de raiva, revolta e desafeto provocaram durante anos acusações que condenavam o pai e a mãe.
As queixas, os rancores e o muro dividindo a família causaram feridas até hoje não cicatrizadas. A rainha de copas para os filhos menores era malvada, tirana e cruel. O rei de Espadas situado do outro lado do muro, pouco se preocupava com os filhos maiores, deixava-os soltos e sem cobranças.
O filho mais velho da ala materna procura, atualmente, não a condenar. Compreende o quanto foi difícil para a mãe carregar o fardo do abandono. Ter de assumir dois papeis ao mesmo tempo, sem estar preparada para esse desafio.
Sabe o quanto a mãe se desgastou física e emocionalmente para educa-los. Por mais que tentasse, ela não conseguiu superar as mágoas e frustrações causadas pela separação. Afirma que hoje se recusa a discutir com a mãe os traumas vividos, pois já sofreram demais.
Sobre o pai, ele sente uma certa nostalgia, lembranças de um resgate tardio, porém intenso entre eles, e que o envolveu de forma profunda. Os olhos enchem de lágrimas ao lembrar da música que o pai gostava, dos poucos e inesquecíveis momentos que passaram juntos e, do seu cheiro forte de perfume. O falecimento do pai foi mais uma perda inesperada, que o deixou mais uma vez partido ao meio.
Por fim, ele me disse que quando adulto precisou sair de casa e do país. Ir para longe, para se desligar da família, para refazer a sua vida emocional, para aprender a perdoar, para respirar sem se sentir sufocado, para afastar a imagem do muro que o oprimia, e, principalmente, para encontrar equilíbrio e paz.