Meus dois amores
Ele, o bonitão, não sabia como se controlar. Amava a noiva e em breve casariam, mas as escapulidas faziam parte do seu universo de seduções. Era difícil resistir a um rabo de saia, e se justa, justiça seja feita, não desprezar, para não se arrepender.
Assim vivia Ivo, que viu a uva e a engoliu inteira. Assim seguia Ivo se dizendo apaixonado. Nem um pouco de batimento cardíaco acelerado entre beijos e abraços.
Vidas que se unem
Quando os filhos despertaram, ficaram surpresos ao verem os meninos deitados com eles, correram para a mãe e perguntaram quem eram aquelas crianças. Ela falou que a família aumentou, e de agora em diante eles eram os seus irmãos; um de dois anos, três de três anos e dois de cinco anos.
O Outro
Desde pequeno Pedro se sentia diferente. A família comentava a quatro cantos que ele era uma criança estranha.
Criança estranha porque falava sozinho, mas toda criança fala sozinho e brinca com os seus amiguinhos fantasmas. Pedro era diferente, conversava, brincava e até brigava com o amiguinho imaginário, como se realmente ele existisse.
Com o passar dos anos Pedro continuava em contato com esse ser invisível. Agora, um jovem e já era tempo de parar com essas bobagens. A mãe o levou ao médico preocupada com o comportamento do rapaz. Ele continuava a falar e até zoar com o estranho amigo. A família passou a achar que ele tinha alguma doença neurológica.
Quem é você? Quem sou eu?
Aos poucos o seu mundo encolheu, virou fragmentos de peças sem sentido, que não se conectam e formam figuras desvairadas. Tudo ao seu redor foi se rompendo, retratos de família sem rostos. Pessoas estranhas que se dizem seus filhos, falam que a ama, mas a vigiam. Estão sempre chamando a sua atenção por pequenas distrações, e lhe cobram lucidez.
OS DESAFIOS DO AMOR
Andaram tropeçando em palavras, escorregando em lembranças até pararem em um bar para acertarem os pontos soltos do passado. Falaram de encontros e desencontros, das vidas paralelas vistas nas velas da avó, e do tempo quase sem tempo.
NÃO JULGARÁS
Sabe o quanto a mãe se desgastou física e emocionalmente para educa-los. Por mais que tentasse, ela não conseguiu superar as mágoas e frustrações causadas pela separação. Afirma que hoje se recusa a discutir com a mãe os traumas vividos, pois já sofreram demais.
Quando a força espiritual supera todos os obstáculos
Não tem medo da morte. Acredita na sua fé, que a faz ganhar dias a mais com os filhos. Espírita fervorosa, afirma que saberá quando irá partir. Diz que na hora do desligamento estará sóbria e tranquila quando for levada pelas entidades.